quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Pobre saúde, desgraçado SNS...


Por saber que alguns dos actuais Dirigentes da Saúde Distrital e Regional visitam este espaço do Fórum, espero que tenham a paciência de ler este testemunho até ao fim, pois o que pude observar no Serviço de Urgência do Hospital de Portalegre foi algo de surreal, que me parece ultrapassar todos os limiares do aceitável, que nunca estudei nos manuais da minha época no que toca a atendimento e acolhimento clínico, mesmo que seja num serviço de urgência, e que, ou muito me engano, ou assim não vamos lá.

Exorto ainda, os Dirigentes da Saúde, que através de uma forma incógnita e dissimulada como utentes, acedam a esses serviços e verifiquem, “in loco”, sem precisarem de testemunhos dos utentes que estão condicionados e fragilizados pela sua situação de doentes, as horas da amargura a que chegou o nosso Serviço Nacional de Saúde.

Na passada segunda-feira, por volta das 11 horas recebi um telefonema, informando-me que um senhor meu amigo se tinha dirigido para o Serviço de Urgência, por ter sentido uma dor durante a noite (talvez de origem renal?), que estava sozinho, e se eu poderia passar por lá para o acompanhar.

Dirigi-me imediatamente para esse serviço de urgência, onde constatei que o meu amigo havia chegado há cerca de 1 hora, e no primeiro atendimento, vulgo triagem, lhe haviam concedido uma pulseira amarela, sinal de urgência moderada.

Através de algumas perguntas que lhe fiz acerca do que sentia (sintomas em saúde), disse-me que a dor não era muito forte, não havia tido náuseas ou vómitos, e, estava relativamente calmo. Pensei para com os meus botões: “se fosse cólica renal a coisa piaria mais fino, mas mesmo assim, devido ao seu passado clínico recente (nefrectomizado em Dezembro), nunca fiando, e lá o fui aquietando.”

Após mais uma hora de espera, o meu amigo, lá foi chamado através de um sistema sonoro fanhoso, do tempo da “mari cachucha”, que ninguém entende ou percebe, que é uma vergonha nos tempos de tanta tecnologia e tanto dinheiro gasto, o que levou que a chamada tivesse necessidade de um intermediário, no caso o Segurança de serviço.

Dispus-me a acompanhar o meu amigo mas, imediatamente, já à porta do “consultório” fui barrado pelo tal da segurança, alegando que eu não era portador do letreiro identificativo de acompanhante no peito, logo, não poderia entrar. Com ar incrédulo lá lancei um olhar apelativo para o médico de serviço, na esperança que a sua autoridade clínica me valesse, pois talvez eu pudesse ajudar! E, em boa hora o fiz, porque o dito, lá me fez um sinal tipo polícia de trânsito para que avançasse.

Apesar de, como todos sabem, ter sido profissional da saúde até Setembro de 2009, já há mais de 3 anos que não assistia a uma consulta médica, ou seja, desde a derradeira doença de minha mãe que haveria de culminar na sua morte. E ao que agora assisti deixou-me estupefacto e passo a descrever:

Ao chegar junto da secretária do médico, onde o meu amigo já estava sentado, a primeira pergunta, num sotaque castelhano (aqui com tradução), que ele vomitou para cima do meu amigo doente, homem de 79 anos, foi:

- Então também estás grávido?

O meu amigo muito atrapalhado, com certeza apoquentado pela dor física nas costas e, pelas da alma, lá replicou, respeitosamente, à eminência, que achava que não! O que o afligia era, na opinião dele, talvez uma cólica renal, pois tinham-lhe tirado um rim acerca de 2 meses e, o outro, agora também não trabalhava; que até andava a fazer hemodiálise, e, tendo contactado a clínica onde fazia esses tratamentos o tinham mandado ir à Urgência Hospitalar, que naturalmente, o melhor seria o senhor doutor mandar-me fazer uma ecografia...

Segunda frase, com tradução, da bestinha castelhana:

- Se tivesses 3 rins talvez te safasses...

Nos 10 minutos seguintes não houve qualquer conversação. O dito castelhano (?) limitou-se a dedilhar o teclado de “su ordenador”, sem nunca olhar para o doente e sem lhe fazer qualquer pergunta. Sempre sentado na sua cadeira, qual exame clínico, qual palpação ou percussão de pesquisa de “Murphy renal” (sinal de Giordano), qual diagnóstico diferencial de possível dor lombar, óssea ou muscular, ou outra? Nada!
Por fim, com um ar de enfado, lá sentenciou:

- Vais a tomar una inyección, y hacer una eco.

Assim que a enfermeira se preparou para a administrar a injecção intramuscular, eu que já suava em bica, apressei-me para sair dali, dizendo para o meu amigo que o esperaria lá fora. Mas logo fui interpelado pelo valentão castelhano:

- Tienes miedo de agujas, nom?

Muito a custo, mas com coragem, lá lhe respondi:

- Olha, tenho medo é de mim!

E lá fui meditando: “há grande padeira, tivesse eu aqui a Pá e agora mesmo servia...”.

Quando cheguei cá fora perguntei a um colega conhecido: - Estes gajos são os médicos das tais empresas? E ele ainda me respondeu:

- São das tais empresas são, não sei é se são médicos...

Felizmente o Relatório da tal “eco renal” não revelava sinais de litíase.

Nota: Com este tipo de clínica, não admira que se morra estupidamente de enfarte de miocárdio depois de várias idas a este serviço, como aconteceu há muito pouco tempo com um nosso conterrâneo. A não ser que, o doente chegue lá e diga a um destes capangas, que tem uma violenta dor no peito, tipo aperto, que lhe irradia para o braço e para o queixo, que sofre de grave hipertensão, que é fumador..., e, que talvez seja melhor fazer um electrocardiograma e as respectivas análises enzimáticas...


Para terminar, mais um triste episódio:

Quando ia buscar esse meu amigo por volta das 14 horas, vinha saindo do dito hospital um casal de idosos do nosso concelho, em que o senhor, homem de 80 anos, ali tinha acorrido devido a episódio agudo de doença.
Procurei inteirar-me, por uma questão de apoio emocional, da situação clínica do homem, mas rapidamente fui surpreendido pela resposta da esposa:
- Ò senhor enfermeiro, não chegámos a ser atendidos. Estávamos ali desde as 10 horas da manhã e ninguém nos chamou. Viemos nós lá de mais de 30 quilómetros de distância, a pagar transporte..., mas já não conseguia lá segurar o meu homem, e olhe, vamos embora, seja o que Deus quiser.

Alguém que tenha mão nisto...

2 comentários:

Helena Barreta disse...

Como quem manda e decide não utiliza os serviços, para eles está tudo bem. Descessem eles do seu pedestal e deixassem-se de arrogância e talvez o estado das "coisas" se alterasse.

Que tristeza.

Joao Raposo disse...

E o que vale é que o clube de Campo Maior já não está na 1ª divisão nem os seus jogos são transmitidos pelas tv.
E se fossem só as urgências!