Fez ontem 5 anos que faleceu a primeira e, até agora, única primeira-ministra de Portugal: Maria de Lourdes Pintasilgo.Numa altura em que muito se discute, inclusive aqui, de política e do que os candidatos e candidatas têm a oferecer ao nosso concelho, pareceu-me bem colocar aqui algumas palavras.
Esta data de ontem fez-me, assim, colocar aqui algumas considerações sobre esta senhora e sobre, afinal, aquilo que se espera dos e das futuros governantes este ano de eleições.
Não vou expor aqui a vida de Maria de Lourdes Pintasilgo. Dos que lerem estas palavras, uns lembrar-se-ão de quem ela foi e do que fez e aqueles que não se lembrarem ou fossem muito novos (como eu era) pesquisem e ficarão a saber o seu percurso que orgulhou Portugal, pois foi um percurso não apenas nacional, mas também internacional, de orgulhosa representação de Portugal.
O que me faz escrever aqui sobre ela é aquilo que ela defendia e onde ela se foi basear. As suas influências, assumiu ela por diversas vezes, eram as da Filosofia, as de algumas das correntes filosóficas mais importantes e pertinentes da contemporaneidade: a ética do cuidado e a ética da responsabilidade (que ainda hoje têm imensa pertinência). Defendia ela que um novo paradigma se impõe no nosso tempo, este tempo que é a era da técnica: o paradigma de cuidar o futuro. Dizia ela que do paradigma do desenvolvimento (sinónimo de progresso tecnológico) teremos de passar, agora, para o paradigma da qualidade de vida. Isto porque esse desenvolvimento e progresso tecnológico conduziu-nos para a constatação de que somos frágeis e não dominadores e poderosos como a era da técnica nos fez pensar (o domínio do humano sobre a natureza). Para isto contribuiu algo que hoje ainda se discute internacionalmente: a incapacidade infinita de regeneração da natureza, da qual o problema do aquecimento global é apenas um dos exemplos. Problemas que nos afectarão pois somos, também nós, natureza.
Defendia ela, então, que cada um de nós não existe sem os outros (uma alteridade necessária) e que se compete a todos cuidar dos seus semelhantes e da natureza, esse imperativo acentua-se ainda mais nos governantes. Porque o futuro deixou de ser encarado como previsível (já que o ser humano não o pode controlar como ainda chegou a pensar) o futuro é o âmbito temporal que deve aliar-se a este cuidar. O imperativo é, então, cuidar o futuro, sabendo que esse cuidar o futuro é cuidar dos outros (seres humanos, animais e natureza) e cuidar para viver com qualidade de vida no futuro, isto é, garantir às gerações vindouras uma vida com qualidade (meios básicos de sobrevivência, educação, saúde, etc).
O que quero aqui deixar é a marca de uma mulher extraordinária que aliou um pensamento teórico-filosófico (ético) a uma prática efectiva (política). O que julgo ser importante é que este seu legado seja tomado em conta pelos aspirantes a governantes; que estes compreendam a importância de que uma prática só poderá ser fundamentada num pensamento teórico prévio. Procurem, dentro de si e no seio dos vossos grupos, aquilo que defendem teoricamente e depois coloquem essas ideias base para a prática efectiva do “cuidar” dos outros, de todos aqueles que terão a cargo. Exponham as vossas ideias, queiram ser sempre melhores, fundamentem o porquê das vossas candidaturas.
São os exemplos passados que nos podem orientar no futuro.

