A exemplo do Comentário do José Boto, há umas semanas atrás, e tal como fez na altura o Bonito, não resisto a por em “Em Primeira Página”, o Comentário feito pelo Victor, ao Post do Garraio sobre “Cirurgia ou Vacina”, para combater algum Caciquismo existente.
Penso que tal se justifica, pois para além da temática sensível a que se refere, “Política de Saúde no Concelho”, que me parece ser de muita coragem, sobre um assunto quase sempre ignorado, mas, que há muito tempo deveria, em minha opinião, ser assunto de PRIMEIRA PÁGINA.
Fica pois, para vossa reflexão o Comentário do Victor:
"Garraio, cirurgia, sem duvida e tomo a liberdade de falar sobre a Saúde no Concelho:
Se fala e escreve muito sobre os cuidados à saúde em Portugal e no mundo nos últimos tempos.
Além da literatura especializada sobre o tema, praticamente todos os dias, deparamo-nos com matérias em jornais, revistas, rádio, televisão e mesmo em conversas informais, sobre casos de pessoas que não foram atendidas, pessoas que morreram, tiveram sequelas pela falta de atendimento médico ou mesmo pessoas que foram mal atendidas, e, até as que foram atendidas e não tiveram os seus problemas resolvidos, mas é bem verdade que nem sempre se fala só do caos do sistema de saúde e dos absurdos que ocorrem em função dele.
Vários utentes do Concelho, acometidos de doenças inesperadas e indeterminadas, têm-se dirigido ao S.A.P de Castelo de Vide, não só pela urgência que os casos implicavam, mas também porque o seu Médico de Família não estava na altura no Centro de Marvão.
O médico que estava de serviço em Castelo de Vide pura e simplesmente se recusou a observá-los, e sugeriu que procurasse o seu Médico de Família, explicando que o problema declarado não constituía caso de urgência, logo não os atendia, como não os atendeu, não obstante saber, que o colega indicado como Médico de Família, não se encontrava no Centro de Marvão, terminantemente manteve a recusa, com indicação à administrativa, que não fizesse a inscrição aos utentes do Concelho de Marvão, e que como alternativa se dirigissem ao Hospital de Portalegre.
Reclamaram só duas pessoas, porquê?
Isto não deixa de ser um quadro paradoxal: grandes e incontestáveis avanços tecnológicos em benefício do ser humano, por um lado, e, por outro, uma sensação de crise permanente, com atendimento inadequado, insuficiente e, pior, oferecido sem equidade (como é no meu caso), em condições péssimas, com instalações degradadas e material obsoleto (basta visitar a Extensão de Galegos, que bem conheces)! Com uma falta total de investimento, quer nos recursos materiais, quer a nível dos utentes, sem transportes apropriados, com impedimentos físicos e com falta de acessibilidade (na extensão de Galegos há pessoas que andam até 5 quilómetros para ser consultados)!
Mas como se resolve isto? Encerrando as Extensões sem condições?
Sim, mas oferecendo outras alternativas aos nossos velhotes, como transportes apropriados, fornecidos pela Câmara de forma gratuita, e se não for possível adequando as instalações ao século XXI …
Porque depois, quando vêm as eleições autárquicas, aí vão os ditos, por vilas e aldeias dirigindo loas ao Poder Local, prometendo tudo a todos.
O Poder Local não é Lisboa como alguns julgam e defendem. O Poder Local, os cidadãos portugueses, os habitantes do concelho são muito mais do que aqueles que se julgam "iluminados”!
Vocês que podem, MUDEM ISTO.
As reflexões aqui contidas nada mais são do que uma tentativa de repensar a nossa postura como profissionais, como gente agradecida ao pessoal do Concelho.
Fazendo isso, inevitavelmente estaremos, mesmo que de forma indirecta, questionando uma série de outros assuntos bem actuais: o Sistema Nacional de Saúde, o trabalho médico, a cidadania, a democratização dos serviços de saúde para todos os utentes, e a forma de interacção desses com os seus usuários e vice-versa.
As palavras de Gregório Marañón (extraordinário médico e pensador) parecem as mais adequadas para colocar o ponto final: "Sentiria muito que alguém concluísse que sou desrespeitoso para com a Medicina em Portugal, e que sou pessimista sobre o seu presente ou seu futuro. Eu respeito a Medicina, porque a amo; e o amor é a fonte suprema do culto, no humano e no divino. Mas o amor é também, e deve ser, crítica. Somente quando esmiuçamos o objecto amado, retirando o que tem de deletério, acertamos a encontrar, lá no fundo, o que tem de imperecedouro. Aquele que fala valentemente dos defeitos da sua Pátria é o melhor patriota, e quem vai polindo com censuras justas sua profissão, esse é, quem a serve com toda plenitude”
24 de Julho de 2008 18:08"